O chamado dos primeiros discípulos, lido no quarto Evangelho, é também uma experiência do caminho. O evangelista João assim nos narra: “João estava de novo com dois de seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus!’ Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: ‘O que estais procurando?’ Eles disseram: ‘Rabi (o que quer dizer: Mestre), onde moras?’ Jesus respondeu: ‘Vinde ver’. Foram, pois, ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele”. (Jo, 35-39a). O texto sagrado nos propõe o seguimento a Jesus que brota de uma procura, de um desejo, de uma busca. No fundo, todos se tornam peregrinos no caminho do Mestre Jesus, ao buscar o sentido de sua vida em um modo de viver guiado pelo Evangelho.
Não só a fé vive em busca do sentido do ser e do viver. Essa é muitas vezes a tarefa da filosofia, em dado ponto da sociologia, da antropologia e de tantas outras ciências. Em um mundo de fragilização das estruturas, de fragmentação de valores, exacerbação do subjetivismo, florescimento de casos de adoecimento mental, faz-se urgente um olhar acentuado para as ciências da psique. A Psicologia é, portanto, esta ciência que muito contribui no entendimento desta busca. Neste sentido, uma das visões do ser humano que mais se aproximam da antropologia cristã é a do neuropsiquiatra austríaco Victor Frankel. Criador da Logoterapia, seu método muito ajuda a entender o viver e pode auxiliar na compreensão da missão dos diáconos, padres e bispos.
O ministro ordenado é antes de tudo, um ser humano. Homem dotado de virtudes, que após um período formativo coloca-as, e a si mesmo, à serviço do Reino e da Ação Pastoral-missionária da Igreja, Sacramento de Cristo. Neste itinerário, é comum que o ministro também por diversas vezes se interrogue a cerca do sentido de sua vida. Essa dúvida ou pergunta, não é em si mesma problemática. Pelo contrário, infelizes os que não têm dúvidas e questionamentos. Podem se encerrar à margem do crescimento humano e espiritual. “Meu duvidar é uma petição de mais certeza” dizia Guimarães Rosa.
Talvez todos os dias Jesus renove a nós, a pergunta feita aos discípulos: “O que estais procurando?”. Assim, quem está nesta busca, é obrigado a interrogar-se constantemente pelo sentido dela mesma. José Saramago ensina que “o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto”. No fundo, o que desejamos, assim como os discípulos, é encontrar o sentido de nosso Ser no mundo, que estará na própria realização daquilo para o qual fomos criados e chamados.
No desenvolvimento do método da logoterapia, Frankel apresenta o desafio na vida como grande oportunidade que capacita um indivíduo a superar adversidades externas ou aflições internas. É preciso estar consciente dos desafios do ministério ordenado e usá-los como potencializadores do exercício prático.
O desafio quando não conscientizado, ou ainda negado, negligenciando, ou visto como algo insuperável, pode conduzir a uma desumanização ou despersonalização, onde o Eu Pessoa é ignorado. Daí nasce a ilusão de que o ministro é um “super-homem”. Essa visão pode ser gerada por si mesmo ou pelos outros.
A vivência do ministério tem uma dimensão paradoxal estupenda. As mesmas realidades, dificuldades e obstáculos que ferem, cansam e podem até angustiar, são também os antídotos contra o caos existencial. Combate-se com as mesmas armas do inimigo, porém potencializadas, pois cheias de sentido espiritual e ontológico. Se para a Logoterapia o sentido de cada instante do viver é que preenche as necessidades humanas, para o ministério, cada pequeno agir voltado para Jesus e para sua mensagem, preenche o anseio de quem se sente chamado por Deus.
Com isso, digo que há um caminho de auto amadurecimento necessário onde é preciso cultivar atitudes livres diante dos impulsos, da percepção da realidade que gera emoções, das quais não se precisa viver como escravo.
Neste caminho de busca de sentido, aprender-se a transcender uma ideia egoísta do ministério, superando o Eu Individual, para um Eu Livre realizado e feliz, que aprende a ter reponsabilidade coletiva sobre seu chamado. Tudo isso só possível porque na origem desde chamado está algo que a logoterapia define como dirigir-se para algo além de si, algo que não seja o próprio eu. Jesus não chama um indivíduo a viver para si mesmo, ou como diz São Paulo: “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos”. (Rm 14,7). O ministro vive para este Senhor e amigo cuja face se encontra no meio daquele povo confiado ao seu cuidado pastoral. Se por um lado, o não ter uma vida para si parece ser o grande desafio, é também o alimento da jornada do ser e do fazer-se ministro.
Para Frankel, o caminho de ir além de si precisa encontrar dois elementos: a) Uma tarefa a se realizar; b) Uma pessoa para amar. Na vida ministerial as tarefas são muitas. Não falta o que fazer. Precisa-se é dar sentido divino e humanizador ao que se faz, de modo a ser apaixonado pelo que se faz. As pessoas para amar e sedentas deste amor são em número grande, mas o amor dispensado a elas precisa ser semelhante ao de Jesus para não ser vazio de sentido, mas um amor Dom de si.
Como peregrinos em busca de Deus, de si e do Reino, o ministro ordenado encontra-se, cotidianamente com essa força motivadora – que chamamos de Espírito Santo- que faz enfrentar e superar toda dor, tédio, cansaço e desilusão que pode haver no caminho.
Se para Frankel o sentido se resume na própria vida como nos é dada e a vida como missão, poucos modos de ser encarnam tão bem este propósito como uma vida consagrada. Assim posto, a resposta de Jesus ao interesse dos discípulos em saber sua morada não poderia ser outra: “Vinde e vede”. E eles foram e encontraram o sentido de suas vidas. Todos os dias quando um ministro sai e vai em seu agir pastoral/missionário por amor, está percorrendo o mesmo caminho. Busca-se o mestre, encontra-se consigo mesmo, se torna feliz, realiza uma missão, e se torna esperança. Na esteira desta esperança, nos recorda o Papa Leão XIV: “No coração da noite, quando tudo parece desabar, Jesus mostra que a esperança cristã não é evasão, mas decisão. Esta atitude é fruto de uma profunda oração na qual não pedimos a Deus que nos poupe do sofrimento, mas que nos dê força para perseverar no amor, conscientes de que a vida livremente oferecida por amor não nos pode ser tirada por ninguém”. (27 de Agosto de 2025). A todo instante o ministro é convidado a alcançar a mesma conclusão que a mística judia Etyy Hillesum chegou em meio ao caos de um campo de concentração: “Todavia, acho a vida bela e cheia de sentido. De minuto a minuto” (Hillesum, 1942). Que diante dos desafios, essa certeza ao olhar para ministério recebido, seja caminho de transcendência e impulso para seguir.

Pe. Sebastião Tiago Gomes
Tutameia. In: João Guimarães Rosa: ficção completa, volume 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
HILLESUM, Etyy. Uma vida comocionada. 2020, [Diário, Caderno 9, 29/06/1942)
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 64 ed. São Leopoldo/ Petrópolis: Sinodal/ Vozes. 2025