Há momentos em que a história parece colocar diante de nós personagens que, embora pertencentes a outros tempos, continuam presentes nas ações humanas. Nero pode representar aquele que utiliza o poder para oprimir, perseguir e ferir; Pilatos, por sua vez, representa aquele que, diante da injustiça, prefere lavar as mãos e preservar a própria tranquilidade. Entre essas duas atitudes, a de quem pratica o mal e a de quem se omite diante dele, encontra-se o cristão de nosso tempo. Diante de uma sociedade marcada pela violência, pela exploração, pela pobreza, pelos extremismos e por tantas formas de desumanização, não basta afirmar que não somos responsáveis pelo sofrimento do outro. O Evangelho nos pergunta o que fazemos quando o sofrimento está diante dos nossos olhos.
A omissão também pode assumir formas silenciosas. Nem sempre somos aqueles que provocam diretamente uma injustiça, mas podemos ser aqueles que a contemplam sem nada fazer. Quando nos acostumamos com a pobreza, quando naturalizamos a exploração, quando transformamos o diferente em inimigo ou quando preferimos o conforto do silêncio à coragem de defender a verdade, corremos o risco de reproduzir a atitude de Pilatos. A Lumen Gentium recorda que a Igreja é, em Cristo, sinal e instrumento da união com Deus e da unidade de todo o gênero humano (LG, 1). Por isso, não podemos compreender a vida cristã como uma experiência individual e indiferente às realidades que nos cercam. Pertencer à Igreja significa também assumir responsabilidade pelo mundo e pelos irmãos que nele vivem.
Talvez uma das imagens mais provocadoras para compreender essa responsabilidade esteja na literatura, em O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux. A figura do Fantasma nos coloca diante de alguém marcado pela rejeição, pelo isolamento e pela ausência de um olhar verdadeiramente humano. Seu sofrimento não justifica suas atitudes, mas a história nos leva a perguntar quantas vezes a sociedade deixa de enxergar pessoas que estão escondidas atrás de suas próprias feridas. Há rostos que aprendemos a ignorar porque são pobres, diferentes, marginalizados ou simplesmente incômodos. O cristão, porém, é chamado a enxergar aquilo que muitos preferem não ver. Cristo não nos ensinou a passar indiferentes diante do outro, mas a reconhecê-lo como irmão. Por isso, entre o Nero que fere e o Pilatos que lava as mãos, existe uma terceira possibilidade: a do discípulo que se aproxima, escuta, acolhe e assume responsabilidade.
É justamente aqui que se encontra o desafio de ser cristão hoje. Não fomos chamados a reproduzir a lógica daqueles que ferem, nem a adotar a neutralidade daqueles que se omitem diante do sofrimento. Somos chamados a ser presença de Cristo no mundo, especialmente onde a dignidade humana é ameaçada. A Igreja, como Povo de Deus, deve ser capaz de sair de si mesma e encontrar as realidades concretas da humanidade, levando consigo não apenas palavras, mas gestos de fraternidade, justiça e esperança. Talvez a grande pergunta de nosso tempo não seja apenas “quem é Nero?” ou “quem é Pilatos?”, mas “onde estamos nós quando o irmão sofre?”. Porque, diante do mal, permanecer indiferente também é uma escolha; e diante do sofrimento do outro, o Evangelho nos chama não a lavar as mãos, mas a estendê-las.
Carlos Henrique, Propedeuta

