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CORAÇÕES INQUIETOS: O DESALENTO E O CANSAÇO EM DEUS

1. Corações inquietos: o desalento e a esperança em Maria

Queridos irmãos e irmãs, na quarta-feira Santa reunimo-nos mais uma vez para contemplar o mistério mais profundo do amor de Deus. Reunimo-nos para recordar o preço que foi pago pela nossa redenção. Somos como filhos que desfrutam de uma herança preciosa. Herdamos a graça, herdamos a vida nova, herdamos a esperança. Mas toda herança tem uma história. Toda herança tem um preço. Antes de nós houve sacrifício, houve entrega, houve amor levado até as últimas consequências. Nós somos co-herdeiros de Cristo, e por isso não podemos esquecer: aquilo que hoje celebramos custou o sangue do Filho de Deus.

Nesta noite, duas dores se encontram. A dor de um Filho que caminha para a cruz e a dor de uma Mãe que caminha ao encontro do sofrimento do Filho. Maria sempre foi aquela que se colocou a caminho. Caminhou para servir, caminhou para consolar, caminhou para levar Deus aos outros. E agora ela caminha rumo à cruz. E diante do sofrimento que não pode impedir, ela faz aquilo que sempre fez: guarda tudo em seu coração e confia em Deus. Maria é mestra do caminho. Maria é mestra da esperança. Cada encontro de sua vida nos ensina algo sobre o sentido da vida.

No encontro com o anjo, Maria pronuncia o seu “sim”: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,26-38). Ali começa uma vida entregue a Deus. Maria nos ensina que um simples sim ao projeto de Deus pode transformar completamente a nossa história. Depois ela se levanta e parte apressadamente para visitar Isabel (Lc 1,39-45). Não vai por obrigação, vai por amor. Vai para servir. Maria nos ensina que quem encontra Deus não consegue guardar essa alegria só para si, leva alegria aos outros. Mais tarde, no templo, Simeão anuncia que uma espada atravessará sua alma (Lc 2,35-38). Maria aprende ali que a fé não é apenas consolo. A fé também passa pela dor. Maria nos ensina que a fé verdadeira não desaparece quando chega a cruz. Depois vem o desespero do Filho perdido no templo. Três dias de angústia, três dias de busca (Lc 2,41-52). Maria corre, procura, sofre, até reencontrá-lo. Maria nos ensina que mesmo quando sentimos que Deus se esconde, vale a pena continuar procurando. Nas bodas de Caná, quando a alegria da festa parecia acabar, Maria percebe a necessidade dos outros. E com delicadeza aponta o caminho: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,1-11). Ela não aponta para si. Aponta sempre para Jesus. Maria nos ensina que o caminho sempre será Cristo. E quando chega a hora mais dolorosa, Maria permanece de pé junto à cruz (Jo 19,25-27). Não foge. Não abandona. Não se afasta. Ali, no momento mais escuro da história, Jesus entrega Maria como mãe à humanidade. E Maria continua ali, firme, silenciosa e fiel.

Irmãos, Maria é bem-aventurada porque acreditou. Como dizia Santo Agostinho, ela foi mais feliz por ser discípula de Cristo do que por ser sua mãe. Ela primeiro concebeu Jesus no coração, antes de concebê-lo no ventre. Seu compromisso, fidelidade e permanência deram sentido à sua vida. E é justamente aí que está uma grande pergunta para o nosso tempo. Quantas pessoas hoje perderam o sentido da vida? Vivemos tempos de ansiedade profunda, de angústias silenciosas, de corações cansados. Muitos caminham sem direção, sem esperança, sem motivo para continuar. A perda do sentido da vida é uma das maiores dores do nosso tempo. Mas Maria nos ensina algo precioso.

Quando disse “sim” ao anjo, Maria nos mostrou que o sentido da vida não nasce do barulho do mundo. Ele nasce do silêncio que escuta Deus. Maria também teve medo. Ela perguntou: “Como acontecerá isso?” Mas o sentido da vida nasce quando o propósito se torna maior que o medo. Como dizia São Basílio Magno: “a inquietação nasce quando confiamos mais em nós do que em Deus”. E talvez possamos dizer ainda mais: a ansiedade cresce quando tentamos carregar sozinhos aquilo que deveria ser colocado nas mãos de Deus.

Maria também nos ensina outra coisa essencial. Ela guardava tudo no coração. Ela sabia ruminar os acontecimentos da vida. Muitas vezes nós não digerimos aquilo que vivemos. As dores vão se acumulando dentro de nós. As frustrações, os medos, as mágoas, tudo vai se transformando num peso silencioso dentro da alma. Maria nos ensina a revisitar os acontecimentos, a rezar sobre eles, a entregá-los a Deus. Porque aquilo que não é rezado acaba nos dominando. Mas a vida com sentido também encontra a cruz. A espada atravessa o coração de Maria. A dor a envolve. O sofrimento a cerca. E mesmo assim ela permanece. Porque sabe em quem colocou sua confiança. Ela sabe que a dor de agora não é maior do que aquilo que Deus prepara para os que o amam. No fim, Maria permanece com os discípulos esperando o Espírito Santo (At 1,14). Permanecer é próprio de quem ama. E quem ama encontra sentido na vida. Por isso precisamos nos perguntar nesta noite: O que nós amamos? A quem amamos? Amamos verdadeiramente a Deus? Amamos Jesus Cristo? Amamos Maria? Amamos o próximo? Porque somente o amor dá sentido à vida.

2.         Corações inquietos: o cansaço em Deus

Agora voltemos o nosso olhar para o Senhor dos Passos. A Senhora das Dores encontra o Senhor do Caminho. Cristo é o Senhor dos passos. É Ele quem conduz nossa caminhada. E diante de um mundo cansado, barulhento e perdido, Ele nos dirige uma das palavras mais consoladoras do Evangelho: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28-29). Que palavra necessária para o nosso tempo.

Vivemos uma época estranha. Nunca tivemos tantas possibilidades, tantas oportunidades, tantas tecnologias e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão cansados. O filósofo Byung-Chul Han chama o nosso tempo de “sociedade do cansaço”. Mas não é apenas o corpo que se cansa é a alma. Hoje já não somos pressionados apenas por ordens ou proibições. Hoje ouvimos uma voz diferente, mais silenciosa, mas muito mais exigente: “Você precisa fazer mais”; “Você precisa render mais”; “Você precisa ser melhor”. E sem perceber deixamos de ser explorados pelos outros para nos explorarmos a nós mesmos. Transformamos a vida numa corrida interminável. Acordamos cansados. Passamos o dia correndo. E à noite sentimos que nunca é suficiente. E quando paramos, vem a culpa. Mas precisamos ouvir novamente a verdade que brota do Evangelho: não somos máquinas. Somo filhos amados de Deus. Não fomos criados para viver no limite o tempo todo. Existe uma vida mais profunda. Existe uma vida mais humana. Existe uma vida mais verdadeira. E ela começa quando redescobrimos algo simples: descansar não é fraqueza, mas é necessidade. Parar não é fracassar, mas é sabedoria. Silenciar não é perder tempo, mas é reencontrar-se com Deus.

São Gregório Magno dizia que “a alma que se afasta da contemplação de Deus acaba se cansando nas coisas exteriores”. Talvez hoje o que nossa alma precisa não é fazer mais, mas voltar-se para Deus. Menos presa e mais presença. Mais presença com Deus. Mais presença consigo mesma. Mais presença com aqueles que você ama. Porque no final da vida não será o quanto produzimos que dará sentido à nossa história. Será o quanto amamos. E nada, absolutamente nada, poderá nos separar do amor de Deus.

Não precisamos ser perfeitos. Precisamos ser inteiros. Como escreveu Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro.” Sejamos inteiros naquilo que vivemos. Inteiros no amor. Inteiros na fé. Inteiros na esperança. Assim como a lua inteira se reflete em cada lago, também a luz de Deus poderá brilhar em nossa vida. Nesta noite santa contemplamos o Senhor dos Passos e a Senhora das Dores. Eles nos ensinam o caminho e nos ensinam a caminhar. Recordamos hoje o preço da nossa herança, a entrega total de Cristo e aprendemos com Maria que uma vida com sentido é uma vida que se oferece. Enquanto as imagens se encontram, caminhemos também nós. Somos peregrinos nesta grande via-sacra que é a vida. Carreguemos nossa cruz. Caminhemos com Maria. E que o amor de Deus nos sustente em cada passo. Amém.

Francisco Xavier Figueiredo

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