A Igreja de Cristo, peregrina na história, é chamada a discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho e a posicionar-se diante dos desafios concretos da realidade. A XI Assembleia Diocesana de Pastoral da Diocese de Araçuaí, que aconteceu em outubro de 2025, elaborou um documento final em que manifestou, com clareza, que a vivência da fé cristã não pode ser dissociada das questões sociais e ambientais, mas deve assumir um compromisso integral com a dignidade humana e o cuidado da criação. Tudo isso encontra ressonância no magistério da Igreja, especialmente na encíclica Laudato si’, do saudoso Papa Francisco, de feliz memória, e na exortação Dilexi Te, do Papa Leão XIV, que reafirmam a inseparabilidade entre fé, justiça social e cuidado da Casa Comum.
Com o olhar de esperança, o documento constatou que cresce na Diocese a consciência da defesa da Casa Comum e o fortalecimento de pastorais com impacto social. Isso é um sinal concreto de fé encarnada na realidade. Essa intuição pastoral está em sintonia com a Laudato si’, que afirma que “tudo está interligado” (LS, n. 91). A criação, a vida humana e as relações sociais formam uma única realidade, chamada à harmonia. Vale recordar a Sagrada Escritura: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar” (Gn 2,15). O homem chamado a cultivar e guardar, ou até mesmo dominar sobre as outras criaturas, deve ter por referência o próprio cuidado e domínio que Deus exerce: Ele domina sobre todas as coisas não como dominador, mas como criador e sustentador providente e amoroso de tudo que existe; assim é o senhorio do Deus altíssimo. O cuidado com a criação e a promoção da dignidade humana não são tarefas separadas, mas dimensões de uma mesma vocação cristã.
Atenta aos desafios socioambientais e consciente do impacto que essa dimensão tem para a fé cristã, a Assembleia denuncia problemas em nossa região: desigualdade social, exclusão, preconceito, pouco acompanhamento aos povos originários e fragilidade no compromisso ecológico. Essas realidades já foram apontadas pelo Papa Francisco na análise crítica da Laudato si’, que afirma que “o ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social” (n. 48).
A Igreja de Deus que está em Araçuaí, sabe que a degradação ambiental desta terra está diretamente ligada à injustiça social. Os mais pobres sempre são os que mais sofrem com a exploração desordenada dos recursos naturais. A Palavra de Deus, denuncia essa realidade como injustiça estrutural: “Ai dos que fazem leis injustas” (Is 10,1); “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Não se ocupar da causa dos pobres não é apenas uma falha social, mas uma ruptura com o próprio Cristo. O documento, portanto, propõe uma Igreja mais próxima dos pobres, vulneráveis e excluídos. E essa proposta apoia-se no magistério da Igreja. Mais precisamente, a exortação Dilexi Te, do Papa Leão XIV, afirma que o amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus com a humanidade; o amor de Deus não é abstrato, mas manifesta-se na história, sobretudo no cuidado pelos pequenos, pobres e sofredores (DT, n. 55-52, 71-73, 102-104). O Evangelho do Reino também constata a centralidade evangélica da opção pelos pobres, expressa na missão de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim… enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). O cuidado com os pobres não é apenas questão de caridade, mas de justiça, o que reforça a necessidade de transformação das estruturas sociais. Atenta a isso, a Diocese de Araçuaí procura: estar junto aos que sofrem; dar voz aos excluídos; promover justiça e inclusão; e reconhecer nos pobres um lugar teológico privilegiado.
O documento final da Assembleia reafirma a importância da ecologia integral e do cuidado com a Casa Comum, no esforço por uma ecologia que integra dimensões ambientais, sociais, culturais e espirituais.
Segundo o Papa Francisco, “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (LS, n. 139). Esse apontamento lança luzes na realidade descrita no documento, especialmente no que se refere aos impactos da mineração, das monoculturas e da desigualdade social. A criação é dom de Deus: “Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Gn 1,31). E sua degradação é sinal de desordem moral: “A criação inteira geme” (Rm 8,22). Cuidar da criação é participar da obra redentora de Deus.
A XI Assembleia Diocesana de Pastoral, iluminada pela Palavra de Deus e pelo magistério da Igreja, revela uma igreja local consciente de que a dimensão socioambiental é constitutiva da fé cristã. Trata-se de uma exigência do Evangelho. A Igreja é chamada a viver uma conversão integral unindo fé e vida, espiritualidade e compromisso social, amor a Deus e cuidado com a criação, tornando-se sinal do Reino de Deus nas terras dos vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Pardo (cf. Mt 6,33).
Gabriel Teixeira Silva
Referências
BÍBLIA de Jerusalém. 20. ed. São Paulo: Paulus, 2024.
DIOCESE DE ARAÇUAÍ. Documento Final: XI Assembleia Diocesana de Pastoral. Araçuaí, fev. 2026.
FRANCISCO, Papa. Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 26 abr. 2026.
LEÃO XIV, Papa. Dilexi te: sobre o amor para com os pobres. Vaticano, 4 out. 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_exhortations/documents/20251004-dilexi-te.html. Acesso em: 26 abr. 2026.

