Neste Sete de Setembro, quando se celebra o Grito dos/as Excluídos/as, ouvimos os gritos do Vale do Jequitinhonha: de sua gente excluída, de suas comunidades dizimadas pela ganância do lucro fácil, de seus territórios invadidos por corporações financeiras e de sua Casa Comum desrespeitada pela sede do capital selvagem. São muitos os gritos que bradam aos céus: crianças, jovens, mulheres, famílias, quilombolas, indígenas, ribeirinhos… Também a natureza eleva seus gritos, violentada por atividades extrativistas que rasgam o solo para retirar suas riquezas, deixando para trás apenas buracos, devastando as matas e secando nascentes e riachos.
Como Pastor do Povo de Deus, ouço os gritos da gente do Vale e não posso calar a voz profética. Esses gritos precisam ser denunciados. Ouço gritos de comunidades inteiras, sufocadas pelo cheiro de explosivos e pela poeira das detonações nas cavas de extração da atividade minerária; atormentadas pela insegurança diante das paredes de suas casas rachadas e das montanhas de rejeitos, denominadas “pilhas de estéril”, que ameaçam desmoronar sobre suas famílias, suas casas, escola, plantações, propriedades, rios e riachos. Gritos de famílias que veem cerceado o direito de ir e vir, isoladas pelas cavas de extração do lítio.
A Área de Proteção Ambiental Chapada do Lagoão grita constantemente diante da amputação de seu território, em benefício da mineração. A empresa mineradora a operar nas suas adjacências pretende extrair água do subsolo, perfurando poços artesianos para a atividade minerária. O que era considerado “a caixa d’água” da região está condenado a secar, assim como as nascentes e os riachos que abastecem comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais do entorno. Como é possível que órgãos do Estado permitam extração de água do subsolo de uma região semiárida, para satisfazer atividade minerária?
Ouço gritos que sobem aos céus, vindos de pessoas e comunidades inteiras que sofrem os impactos da monocultura do eucalipto. As matas nativas deram lugar a imensas extensões de eucalipto, transformando a paisagem e substituindo a beleza original da diversidade da natureza por uma monocultura que empobrece e uniformiza o território. O uso indiscriminado de agrotóxicos afeta a saúde das crianças, idosos e comunidades tradicionais. A Chapada das Veredas está vendo suas nascentes secarem, enquanto os agricultores já não dispõem de água suficiente para a agricultura familiar e de subsistência. O que era um projeto redentor para a superação da miséria e da pobreza vem se constatando como instrumento de morte socioambiental.
Não se pode permitir que esses sejam os preços a serem pagos pelo desenvolvimento, pela oferta de empregos e pela geração de renda! Enquanto poucos se fartam de tanta riqueza, os desafortunados jazem em um vale de lágrimas, à sombra da morte, abandonados aos impactos da voracidade do capital. Ensurdecidos por tantos gritos, elevamos nosso olhar de esperança para um horizonte de desenvolvimento integral, no qual todas as pessoas sejam respeitadas e nenhuma parcela de descartados tenha que pagar o alto preço de um pretenso desenvolvimento que tarda a chegar ao Vale do Jequitinhonha.
Temos a certeza de que esses gritos não serão em vão, pois o nosso Deus desce dos céus e toma o partido dos/as excluídos/as e descartados da sociedade. Inspirados pela Palavra de Deus e fortalecidos pela esperança que não decepciona, acreditamos que o nosso Deus tem lado: o lado daqueles que hoje são escravizados , como outrora no antigo Egito. A esses irmãos e irmãs, Deus continua a dizer: “Eu vi a humilhação do meu povo no Egito, e ouvi seu clamor por causa da dureza dos feitores. Sim, eu conheço seu sofrimento. Desci para livrá-los da mão dos egípcios e fazê-los sair dessa terra para uma terra boa e espaçosa…” (Ex 3,7-8). Os profetas não se cansaram de denunciar as mazelas e anunciar o projeto humanizador de Deus. Por fim, Deus enviou o seu Filho, “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10), motivando a todos a buscar “em primeiro lugar o Reino dos céus e a sua justiça” (Mt 6,33).
O sonho de Deus permanece vivo no livro das revelações e alimenta o nosso horizonte de esperança: “Eu vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe… Eu ouvi uma voz forte que saía do trono, dizendo: ‘Esta é a morada de Deus-com-os-homens, e ele morará junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas de antes passaram… Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,1-5).
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí
