Celebramos neste dia 3 de setembro a memória de São Gregório Magno, bispo e doutor da Igreja. Sua relevância para a história eclesiástica é inquestionável. A tradição associou seu nome ao repertório que, amadurecido ao longo de vários séculos, recebeu a denominação de “canto gregoriano”. Embora a formação histórica desse repertório seja mais complexa do que uma atribuição direta ao pontífice, seu nome permanece ligado ao empenho da Igreja na organização, transmissão e preservação do canto litúrgico.
O Concílio Vaticano II afirmou algo categórico desse patrimônio: “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”[1]. Antes de qualquer conclusão apressada sobre a riqueza das reflexões que o Sagrado Concílio nos fez alcançar, devemos entender primeiro por que o canto gregoriano se tornou referência para a liturgia e o que significa reservar-lhe o primeiro lugar “em igualdade de circunstâncias”.
Essa primazia não se compreende apenas como preferência estética, mas como critério teológico e pastoral. O canto gregoriano tornou-se referência porque nasceu unido ao texto litúrgico, acompanhou a oração da Igreja ao longo dos séculos e conservou uma forma de cantar que privilegia a Palavra, a sobriedade e o sentido do mistério.

A música é obra-prima do próprio Deus e encontra suas primeiras possibilidades na criação, pois todas as coisas vibram. “Os sons harmônicos são uma espécie de assinatura de Deus, do músico Divino, que quis colocar ordem em todas as vibrações existentes”[2]. No ser humano encontra-se a capacidade de reconhecer essa ordem, interpretar os sons e perceber neles harmonia e sentido.
Os Padres da Igreja ressaltaram por diversas vezes o prazer natural que o ser humano experimenta no canto e na música. São João Crisóstomo afirmou que o canto na lida quotidiana alivia o trabalho, “pois a alma, graças a estes cantos, suporta sem queixar-se as mais duras fadigas”[3]. No canto, o ser humano encontra uma linguagem para exprimir a alegria, a tristeza, a dor, a felicidade, a força e a coragem. A música não apenas transmite sons: ela alcança os afetos, desperta a memória e dispõe interiormente aquele que escuta.
A tradição judaica sinagogal fez chegar até nós a recitação melódica da Palavra de Deus, conhecida como cantilação. Depois da destruição do Templo de Jerusalém, a oração e o louvor assumiram importância ainda maior na vida religiosa do povo. “Nesse contexto, desenvolveram-se formas de canto devocional segundo quatro tipologias: tefilah (oração), berakah (bênção), halel e shevah (louvor), e kedusha (doxologia)”[4]. A liturgia e a espiritualidade cristãs primitivas beberam amplamente das fontes do judaísmo e conservaram, entre outros elementos, a primazia da Palavra. Por isso, na tradição litúrgica cristã, a música não deve obscurecer o texto, mas servi-lo, proclamá-lo e favorecer sua acolhida pela assembleia.
No desenvolvimento histórico do repertório que chamamos hoje de “gregoriano” manifesta-se um princípio posteriormente formulado com clareza por São Pio X: “o ofício principal da música na liturgia é revestir de adequadas melodias o texto litúrgico, acrescentando-lhe eficácia”[5]. A música está, portanto, a serviço da Palavra e da ação litúrgica. Ela não é mero ornamento exterior, mas favorece a proclamação, a compreensão e a recepção espiritual do texto. São João Crisóstomo traduziu essa pedagogia divina de instrução ao explicar por que a recitação dos salmos vem acompanhada do canto:
Deus, vendo a indiferença de muitos homens, que não têm nenhuma afeição pela leitura de coisas espirituais e não podem suportar o trabalho sério do espírito que elas requerem, quis tornar-lhes este esforço mais agradável e tirar-lhes até a sensação de fadiga. Uniu então a melodia às verdades divinas, a fim de inspirar-nos pelo encanto da melodia um gosto muito vivo por estes hinos sagrados[6].
O canto gregoriano é o modelo amadurecido ao longo de séculos na história da Igreja e por sua confiabilidade espiritual assume o lugar de referência. Nessa mesma direção, São João Paulo II retomou a regra geral apresentada por São Pio X: “uma composição é tanto sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana”[7]. O próprio João Paulo II esclarece que isso não significa copiar materialmente o canto gregoriano. Trata-se, antes, de permitir que as novas composições sejam impregnadas do mesmo espírito que suscitou e progressivamente modelou aquele repertório. O critério não é a reprodução arqueológica de formas antigas, mas a assimilação de seus princípios: primazia do texto, correspondência ao rito, sobriedade, qualidade artística, sentido eclesial e capacidade de conduzir ao mistério celebrado.
A expressão “igualdade de condições” faz considerar as capacidades e disposições de uma determinada comunidade para se exigir a execução de um ou de outro estilo de música sacra. Trata-se de uma expressão da caridade na Igreja em meio às diversas comunidades que a constituem. Ela exprime o desejo de que todos os povos, unidos a Cristo Senhor nosso, no mesmo Espírito e na mesma fé, glorifiquem a Deus e sejam santificados. Afinal de contas é essa a finalidade da música sacra[8].
Desse modo, a tradição não é apresentada como peso a conservar por costume, mas como escola de discernimento. Ao olhar para o canto gregoriano, a Igreja reconhece um modo de cantar que educa a sensibilidade litúrgica, subordina a arte ao mistério celebrado e oferece critérios para julgar também as composições novas.
A precedência do gregoriano não funciona, portanto, como uma imposição mecânica. Ela indica a posição normativa e exemplar de um repertório que pertence de maneira singular ao rito romano. Quando as circunstâncias litúrgicas e pastorais permitem escolhas igualmente adequadas, esse canto deve conservar o primeiro lugar, pois se desenvolveu em profunda união com a Palavra e com a própria estrutura do rito romano. Inspirar-se nele não significa repetir o passado, mas aprender com a tradição a produzir uma música que não se sobreponha ao mistério: uma música que nasça da Palavra, sirva à oração, favoreça a comunhão e conduza os fiéis à glorificação de Deus e à santificação da vida.
Diác. Francisco Xavier Figueiredo
[1] Sacrosanctum Concilium, n. 116.
[2] FRISINA, Marcos. 1º Congresso Internacional de Coros Litúrgicos, Campinas -SP 28 a 30 de agosto de 2026.
[3] Expositio psalmum, 41, 1, in BASURKO, 2005, p.30.
[4] CURY, Breno. 2024, p.22.
[5] Tra le Sollecitudini: Sobre a música Sacra (1903), n.1.
[6] Expos. in psalmum, 41, 1, in BASURKO, 2005, p.3.
[7] Quirografo do Sumo pontífice João Paulo II: no centenário do Motu Proprio Tra Le Sollecitudini Sobre a Música Sacra (2003), n.12.
[8] Musicam Sacram: Sobre a música na sagrada liturgia (1967), n.4.[1] Sacrosanctum Concilium, n. 116.
