junho 8, 2026
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Artigos

Desafios à fé 

A Epístola aos Hebreus, no cap. 11, vv. 1-3, nos faz uma apresentação do que seja a fé: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível”. Sendo fundamento da esperança, a fé nos adianta e nos garante aquelas realidades almejadas. 

Constatamos, ao longo da história, diversas formas de vivenciar a fé. Aquela mesma fé recebida pelos Apóstolos foi sendo acolhida e tomando formatos específicos em contextos diversos, de acordo com as realidades culturais, ao longo da história. Na verdade, o conteúdo da fé não muda. O que muda são as formas de acolhida e de vivência da mesma fé. Em dois milênios, perseveramos nos mesmos três Artigos que resumem todo o conteúdo de nossa fé cristã, expresso nos dois principais Símbolos que professamos e que se fundamentam no Evangelho: Creio em Deus Pai…; Creio no seu único Filho…; Creio no Espírito Santo… Somos chamados a dar as razões desta nossa fé (cf. 1Pd 3,15). 

Na Antiguidade, a fé tinha uma expressão característica quando os cristãos eram chamados a dar testemunho diante de dois grandes desafios: as dramáticas perseguições do Império romano e as frequentes heresias que brotavam dentro do cristianismo. À medida que o cristianismo foi se consolidando no Ocidente, surgiram outros desafios: a espiritualidade, a vivência da pobreza evangélica, a presença no mundo da sabedoria e do conhecimento, a assistência aos idosos e enfermos etc. Para dar resposta a esses desafios surgiram as diversas Ordens religiosas, com seus carismas específicos, as Ordens mendicantes, as Confrarias, as Universidades… A Igreja conseguiu dar uma excelente resposta de fé aos desafios culturais da Idade Antiga e da Idade Média. 

Na Modernidade, surgiram novos desafios com o advento do Iluminismo: o subjetivismo, o racionalismo, o relativismo, o cientificismo etc. A primeira resposta dada pela Instituição católica foi a condenação de tudo isso, fechando-se na redoma da societas perfecta, como estratégia de autopreservação. Assim, diante dos novos desafios do mundo moderno, a Igreja se apresentava como a “sociedade perfeita”. No início do séc. XX, a Igreja se abriu ao diálogo com o mundo moderno, processo que culminou na realização do magnífico Concílio Vaticano II. Uma nova onda belíssima de inserção da Igreja no meio do mundo garantiu-lhe o resgate do testemunho cristão na sociedade. 

Diante da secularização e do ateísmo, surgiu o fenômeno do “retorno do sagrado”. O sentimento religioso retorna de forma desordenada, apresentando três características principais: o sentimentalismo, o pragmatismo e o neoconservadorismo. É justamente isso que vemos nas variadas expressões dos movimentos neopentecostais: voltados para o sentimento das pessoas, procuram resolver seus problemas de imediato – curas de doenças físicas, mentais e espirituais, resolução de problemas financeiros etc. – e apresentam uma forte expressão que remonta aos tempos medievais, quando a presença da religião parecia ter maior eficácia na sociedade. Tudo isso influenciado pela “teologia da prosperidade”, que promete vida fácil e benesses, e que tem culminado na “teologia do domínio”. 

É preciso analisar essas novas expressões de fé com muita cautela e verificar se elas condizem com nossa fé apostólica, com a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo e com a iluminação que o Espírito Santo quis manifestar à Igreja nestes tempos atuais. Não basta repetir os métodos que se apresentaram eficazes no passado ou inventar novidades contrárias à fé. É urgente buscar novos métodos que nos garantam respostas condizentes com a realidade e que possam convencer o mundo atual da beleza e da novidade salvífica que carregamos em vasos de argila. 

Diante dos desafios das “coisas novas” de nosso tempo, o Papa Leão XIV lançou sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, na qual procura resgatar a altíssima dignidade da pessoa humana diante dos avanços da tecnologia: “As novas tecnologias abrem um horizonte alargado em direções que, embora imagináveis, não podemos ainda antever plenamente. Isto torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum” (MH, 4). A fé cristã é desafiada a dar suas razões de esperança diante desses novos desafios. 

O Papa nos chama a ser “tecelões de esperança” no mundo de hoje, seguindo a mesma fé de Maria Santíssima: “Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IA (Inteligência Artificial) pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida: o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém aberta, em cada época, a possibilidade de se tornar história de salvação à luz da Encarnação. Confio este desejo à Mãe de Cristo, à mulher do Magnificat, para que acompanhe os nossos passos no presente em mudança e guarde em cada um de nós a confiança no Evangelho, de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus” (MH, 245). 

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

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