Outro dia, ouvi de um ‘desigrejado’ o argumento de que, até tinha simpatia, mas não
frequenta a Igreja Católica porque tudo é monótono e repetitivo. A reclamação não era nova, mas
a forma como foi expressa — com uma certa resignação, como se tivesse desistido de encontrar
sentido naquilo — tocou-me profundamente. Muitos acusam a Igreja de ser monótona. É comum
ouvir a queixa de que as celebrações são ‘sempre a mesma coisa’, uma sucessão previsível de
ritos e palavras que não oferecem novidade. Contudo, essa percepção revela uma compreensão
superficial tanto da natureza humana quanto do mistério cristão.
A vida, em sua essência mais profunda, não é uma sucessão ininterrupta de novidades
estonteantes, mas a arte de repetir, ressignificando cada ato a cada novo dia. A repetição não é o
fim do sentido, mas o seu berço. A questão central não reside na repetição em si, mas na maneira
como se repete. Não é o gesto que se esgota, mas o como ele é vivenciado.
A repetição faz parte intrínseca da vida. Respirar, comer, dormir e acordar são atos
repetitivos. O trabalho diário, por mais criativo que seja, carrega uma dose inevitável de
conjugação repetitiva. O amor aos pais, aos irmãos, aos filhos, e aos esposos se expressa em
gestos que se repetem: o abraço, o beijo de boa noite, a pergunta ‘como foi o seu dia?’. No
entanto, ninguém seria tão ousado em dizer que o amor é monótono por se repetir. Pelo contrário,
é uma repetição que se renova, que ganha contornos inéditos a cada dia, pois o amante e o amado
nunca são exatamente os mesmos de ontem. A vida é, portanto, uma tapeçaria tecida com fios
repetitivos, mas cujo desenho final é sempre único e irrepetível.
Na esfera da fé cristã, e particularmente na Liturgia da Igreja, essa dinâmica da repetição
atinge seu ápice teológico. A liturgia não é uma mera cerimônia ou uma recordação nostálgica de
um passado distante. Como ensina a Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano
II, a liturgia é a atualização do mistério pascal de Cristo (cf. SC 4-7). O rito é o mesmo. O
sentido, contudo, é infinitamente diferente a cada dia. Quando a Igreja se reúne para celebrar a
Eucaristia, ela realiza um gesto repetitivo — “fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19) —, mas
essa repetição é, paradoxalmente, a fonte de toda novidade.
A teologia cristã compreende essa repetição através do conceito de anamnese (memorial).
O memorial bíblico, o zikkaron hebraico, não é um mero exercício psicológico de lembrança. É
um ato pelo qual o evento salvífico do passado se torna real e eficaz no presente. Quando a Igreja
repete os gestos e as palavras de Jesus na Última Ceia, ela não está encenando uma peça de teatro
histórico. Ela está permitindo que o Cristo ressuscitado atualize o seu sacrifício de amor no hoje
da comunidade celebrante. A missa que se celebra hoje, na mais humilde das paróquias, é a
mesma de Jesus no Cenáculo e no Calvário, mas é sempre uma nova missa.
O rito é o mesmo, garantindo a fidelidade à tradição e a comunhão com a Igreja universal.
A assembleia, em sua estrutura essencial, é a mesma, formada por pecadores redimidos. O padre
age in persona Christi, e o Cristo que se doa no pão e no vinho é o mesmo ontem, hoje e para
sempre (Hb 13,8). Mas a celebração é única. É única porque as angústias, as alegrias, as tristezas
e as esperanças que a comunidade traz para o altar naquele dia específico nunca existiram antes e
nunca mais existirão daquela exata maneira. A repetição do rito oferece um vaso seguro para
conter a fluidez imprevisível da vida humana, permitindo que a graça divina ressignifique a
existência a cada encontro.
A monotonia de que a Igreja é frequentemente acusada nasce quando se perde de vista
essa dimensão mistagógica e ressignificadora da liturgia. Se a Celebração Eucarística é vivida
apenas como o cumprimento de um preceito legal ou a observância mecânica de rubricas, ela
inevitavelmente se tornará estéril. O Concílio Vaticano II, ciente desse perigo, insistiu na
necessidade de uma participação plena, consciente e ativa dos fiéis (SC 14). Essa participação
não significa apenas cantar ou responder em voz alta, mas entrar no dinamismo espiritual do rito,
deixando que a repetição externa modele a transformação interna.
A repetição litúrgica é um antídoto contra a tirania da novidade superficial que domina a
cultura contemporânea. Em um mundo obcecado pelo efêmero, pelo próximo lançamento, pela
próxima sensação, a Igreja oferece o ritmo sereno e constante do Ano Litúrgico. A cada ano,
repetimos o Advento, o Natal, a Quaresma, a Páscoa e o Tempo Comum. Essa repetição cíclica
não é um andar em círculos, mas uma espiral ascendente. A cada volta, somos convidados a
mergulhar mais fundo no mistério de Deus, a partir de um novo ponto de maturidade espiritual e
humana.
Cristo está sempre presente em Sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Ele está
presente no ministro, nas espécies eucarísticas, na Palavra proclamada e na assembleia reunida
(SC 7). Essa presença múltipla e constante garante que a repetição litúrgica nunca seja vazia. É a
presença viva do Ressuscitado que injeta sentido na materialidade do rito. O pão é sempre pão, o
vinho é sempre vinho, as palavras da consagração são sempre as mesmas. Mas a ação do Espírito
Santo transforma esses elementos cotidianos no Corpo e Sangue do Senhor, realizando o milagre
da transubstanciação.
Portanto, a vida cristã é um convite contínuo à ressignificação através da repetição. Não
devemos temer a rotina, mas sim a ausência de sentido nela. O desafio pastoral e teológico da
Igreja hoje não é inventar ritos novos a cada domingo para entreter a assembleia, mas educar o
olhar e o coração dos fiéis para que descubram a infinita novidade escondida na aparente
mesmice do rito. Como dizia o poeta, a beleza não está nas coisas novas, mas em ver as coisas
velhas com olhos novos.
A liturgia é a escola onde aprendemos a arte de repetir com sentido. Quando
compreendemos que a Missa é a atualização do amor incondicional de Deus no hoje da nossa
história, a acusação de monotonia se desfaz. O rito é o mesmo, o Cristo é o mesmo, mas a Graça
que transborda do altar tem o poder de fazer novas todas as coisas (Ap 21,5). A repetição, longe
de ser o túmulo da criatividade, revela-se como o sacramento da fidelidade divina, que nos
acompanha passo a passo, repetição após repetição, até a parusia.
Pe. Hedivan Junior Pereira Alves
Pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, Coronel Murta – MG e Representante dos Presbíteros da
Diocese de Araçuaí.
