abril 30, 2026
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“Vós Também não Quereis ir Embora?”: a crise como purificação e reavivamento do Dom

A brisa do entusiasmo popular na Galileia havia cessado. Após o milagre da multiplicação dos pães, a multidão queria fazer de Jesus um rei, mas o discurso do Pão da Vida trouxe a dura realidade da cruz e da entrega total. A linguagem pareceu dura demais, e muitos discípulos recuaram. É neste cenário de esvaziamento e aparente fracasso pastoral que Jesus se volta para os Doze, o núcleo mais íntimo de seus chamados, e lança a pergunta que ecoa através dos séculos: “Vós também não quereis ir embora?” (Jo 6,67).

Esta crise da Galileia é o paradigma de toda crise ministerial autêntica. A palavra crise (do grego krisis) não significa originariamente ruína ou destruição, mas o ato de peneirar, de separar o trigo do joio, de discernir. Na vida do presbítero, a crise não é um acidente de percurso ou um sinal de fracasso; é uma etapa necessária e providencial para o amadurecimento do amor e a purificação das motivações.

Muitas vezes, iniciamos o ministério impulsionados pelo fervor dos primeiros chamados, sustentados pela gratidão das comunidades e pela clareza dos ideais. Contudo, assim como os discípulos, inevitavelmente nos deparamos com a nossa própria “crise da Galileia“. Ela pode assumir o rosto do cansaço pastoral, da solidão no presbitério, da incompreensão diante das mudanças culturais, ou do sentimento de irrelevância em um mundo secularizado. O pão multiplicado que antes atraía multidões dá lugar à exigência cotidiana de mastigar o pão duro da fidelidade silenciosa.

Quando as expectativas idealizadas desmoronam e as seguranças humanas vacilam, o Senhor nos olha nos olhos e repete a mesma pergunta: “Vós também não quereis ir embora?”. Ele não nos prende por obrigação, não apela para a culpa, nem oferece falsas consolações. Jesus nos devolve a liberdade. A crise ministerial é, portanto, um convite divino para escolhermos novamente Aquele que nos escolheu primeiro. É o momento de reavivar o dom da vocação (cf. 2 Tm 1,6), não através de novas técnicas pastorais, mas de um retorno radical ao essencial.

O Concílio Vaticano II, na Presbyterorum Ordinis, reconhece com clareza as dificuldades que enfrentamos: “Os novos obstáculos que se opõem à fé, a esterilidade aparente do trabalho realizado, e ainda a dura solidão que experimentam, podem levá-los ao perigo do desalento.” Mas o mesmo Concílio nos oferece a resposta: “Lembrem-se, pois, os presbíteros que no exercício da sua missão nunca estão sós, mas apoiados na força onipotente de Deus” (PO 22).

Na Quinta-feira Santa, o Papa Leão XIV, ao lavar os pés dos sacerdotes, expressou de forma eloquente essa preocupação e atenção especial aos presbíteros. A Igreja olha compassivamente para seus ministros e os acolhe com o amor e a generosidade do próprio Cristo, o Bom Pastor. O gesto do Papa, ajoelhando-se diante dos presbíteros para lavar-lhes os pés, é um testemunho vivo de que a Igreja é Samaritana; ela vê, reconhece, tem compaixão, aproxima-se e cuida daqueles que servem. É o olhar de quem compreende o peso da vocação, a solidão do ministério e as feridas invisíveis que os presbíteros carregam.

Que a nossa resposta, forjada no crisol da realidade e iluminada pela Graça, seja a mesma de Pedro. Uma resposta que não nasce da presunção de quem nunca fraqueja, mas da certeza humilde de quem descobriu que fora do amor do Mestre não há vida verdadeira: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Que a crise não nos roube a esperança, mas nos devolva a pureza do primeiro amor, tornando nosso ministério não um fardo a ser carregado, mas um dom continuamente reavivado. E que saibamos reconhecer, neste cuidado pastoral da Igreja, o próprio Cristo que nos ama e nos serve, convidando-nos a renascer.

Pe. Hedivan Junior Pereira Alves, Representante dos Presbíteros

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