novembro 5, 2026
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Vazio e Presença

Jacopo di Cione and workshop The Three Marys at the Sepulchre: Upper Tier Panel 1370-1 Egg tempera on wood, 95.6 x 49.1 cm Bought, 1857 NG576 https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/NG576

Ao passarmos por uma experiência de perda e luto, o primeiro sentimento que nos invade é a tristeza pelo vazio deixado por quem se foi. Fica um lugar vazio à mesa, na sala, na cozinha, no quarto. Parece que todos os ambientes da casa se tornaram maiores, mais amplos, mais espaçosos, denunciando a ausência da pessoa amada que partiu para não mais voltar. É um vazio gritante, que atinge a alma das pessoas que ficaram. Na verdade, é um vazio que se instala no coração.

Esse vazio é a ausência da pessoa que partiu? É preciso distinguir, aqui, vazio, ausência e presença. Para isso, recorremos ao dicionário. Segundo o Michaelis, “vazio” significa “falta ou privação de alguma coisa” — ou de alguém, podemos acrescentar — e também designa um “sentimento indefinível e profundo de inutilidade e insatisfação”. No lugar da pessoa que se foi, fica uma ausência desconcertante. Sentimos a falta de seu rosto, de seu sorriso, de seu olhar, de suas palavras…

Continuamos a buscar a compreensão de conceitos, segundo a mesma fonte. “Ausência” é “afastamento, por curto prazo, de uma pessoa do lugar em que se deveria achar” ou “falta do que se supunha existir”. A ausência de uma pessoa gera o vazio. Quem parte para outra condição de existência deixa um vazio. Mas todo vazio é ausência? Seria possível preencher o vazio deixado pela ausência por meio de uma presença diferenciada?

E o que é a presença? Seria o contrário de ausência e de vazio? “Presença”, continua o Michaelis, é o “comparecimento de alguém num determinado lugar”; “ação ou influência de algo que se mantém vivo num outro contexto; participação”. O vazio pode ser preenchido com outra espécie de presença, não física, não corporal. Podemos falar de presença espiritual, presença simbólica, presença na memória. Fazer  memória de alguém que se foi é perpetuar sua presença no vazio que ficou. Vamos compreendendo, assim, que pode haver uma outra forma de presença no vazio deixado.

Recorremos aos textos bíblicos que narram a experiência que os discípulos de Jesus fizeram do túmulo vazio: Mt 28,1-10; Mc 16,1-8; Lc 24,1-12; Jo 20,1-10. Antes de fazerem a experiência de Jesus ressuscitado, os discípulos passaram pela experiência do túmulo vazio. A partir daquele vazio, foram compreendendo e acolhendo uma outra forma de presença do Senhor crucificado e ressuscitado. Assim, o túmulo vazio não significava simplesmente ausência, mas apontava para uma presença ressignificada por um acontecimento extraordinário: a ressurreição do Senhor. Embora o túmulo estivesse vazio, os discípulos foram chamados a experimentar uma nova realidade: Jesus havia entrado na plenitude da vida.

Assim como os discípulos, somos chamados a preencher o vazio de nossas experiências, acolhendo uma nova forma de presença, que nos permite ir além da simples ausência de quem partiu. Os seguidores de Nosso Senhor logo compreenderam  que ele havia ressuscitado para a plenitude da vida. O vazio do túmulo deu lugar à realidade da ressurreição. E o Senhor manifestou-se aos discípulos, confirmando a fé na superação do vazio deixado. Agora, o Senhor vive para não mais morrer. Proclama o Apóstolo Paulo: “A morte foi tragada pela vitória; onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,55).

Professamos nossa fé na ressurreição da carne e na vida eterna. Acreditamos, assim, que a pessoa que partiu participa de uma nova forma de vida, junto de Jesus ressuscitado, na comunhão com o Pai, nas moradas eternas. Desse modo, o vazio que ficou não precisa ser compreendido apenas como ausência, mas também como sinal de uma presença que permanece de outra forma. Cada um de nós pode preencher esse vazio por meio da memória dos bons momentos vividos juntos, do amor que uniu as pessoas e da solidariedade oferecida a quem mais precisou, no momento oportuno. Portanto, o vazio não é apenas ausência; pode tornar-se também presença continuada, de outra forma, mais intensa e profunda, no sentimento, na memória e no amor que permaneceu e haverá de perdurar para sempre.

Dom Geraldo dos Reis Maia

Bispo de Araçuaí

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