março 7, 2026
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Padre Carlos Badaró: vida, vocação e missão

No dia 8 de agosto de 2025, a cidade de Virgem da Lapa, no Santuário Diocesano, recebeu o vigário geral da Diocese de Araçuaí, Padre Carlos Geraldo Badaró Ramalho, para celebrar o terceiro dia da novena em honra a Nossa Senhora da Lapa. Sua voz, firme e intensa durante a homilia, parecia não anunciar que aquela seria sua última missa. Horas depois, às 23h, ele partiu para a eternidade.

Nascido em 6 de outubro de 1955, em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, Padre Carlos era filho de Dona Maria do Rosário Badaró, a Rosarinha, pertencente à tradicional família de Murilo Badaró. Único filho homem, cresceu ao lado de três irmãs — Denise, Raquel e Sinhá — cercado pelo apoio incondicional da mãe, das irmãs e dos avós. Seu pai, inicialmente mais discreto, passou com o tempo a incentivar a vocação do filho — e, antes de falecer, dois anos antes da ordenação sacerdotal, tinha a maior alegria em contar aos amigos que seu único filho homem se tornaria padre.

Padre Carlos dizia que sua vocação era como a do profeta Jeremias: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci”. Desde criança, já dizia que queria ser padre. As pessoas que encontrava na igreja foram suas grandes referências, inclusive uma senhora a quem carinhosamente chamava de “Ave Maria”. Brincava de celebrar missas, organizar procissões, montar presépios e até batizar a boneca das irmãs. E, à medida que crescia, a figura e a missão do sacerdote tornavam-se para ele cada vez mais claras.

Foi batizado ainda bebê, no dia 20 de novembro de 1955, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Minas Novas, pelo pároco Padre José Antônio van der Boom. Seus padrinhos foram o avô materno, Benedito Badaró, e a avó paterna, Ambrosina Mota. Naquele dia, sua madrinha de carrego, Dona Conceição Figueiró — prima de seu pai — cumpriu a tradição católica de conduzi-lo da casa do Miolo, onde vivia, até a igreja, acompanhada dos avós.

Ingressou no Seminário Santo Antônio, em Juiz de Fora, onde completou sua formação sacerdotal. Foi ordenado padre em 19 de dezembro de 1983, e neste ano completaria 42 anos de vida sacerdotal. Após a ordenação, retornou ao Vale do Jequitinhonha para servir em paróquias de algumas cidades: Minas Novas, Chapada do Norte, Itaobim, Coronel Murta, Araçuaí e Itinga. De 25 de janeiro de 1985 a 12 de janeiro de 1987, foi pároco na Paróquia Santo Antônio, em Itinga. Na Igreja de São Roque, em Itaobim, permaneceu por 11 anos, até ser nomeado, em 8 de março de 2017, pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Coronel Murta. Em 22 de fevereiro de 2022, foi designado Vigário Geral da Diocese de Araçuaí pelo bispo Dom Esmeraldo Barreto de Farias e, em julho de 2025, Dom Geraldo dos Reis Maia, bispo Diocesano, o nomeou novamente para tão importante serviço.

Sua maior alegria, sempre repetia, era estar entre os pobres, visitar os doentes e, sobretudo, celebrar a Santa Missa e distribuir a Sagrada Comunhão, oferecendo o Corpo e o Sangue de Cristo na hóstia consagrada.

Sua tia, Corina Badaró, que faleceu com quase 100 anos de idade e viveu um caminho intenso de santidade, deixou-lhe um ensinamento que ele nunca esqueceu: “Não tem o Senhor do bom princípio e sim do Bom fim”. Talvez por isso tenha partido após ter cumprido plenamente sua missão.

Tive a alegria e o privilégio de ser amigo virtual de Padre Carlos. Nossa amizade nasceu de um interesse em comum: há alguns anos venho escrevendo a biografia do Padre José Maria do Sacramento, que, em vida, foi acolhido em Santa Cruz da Chapada por Dona Corina Badaró. Padre Carlos, sempre solícito, atendia-me com generosidade, compartilhando histórias e memórias que revelavam a ligação profunda entre os Badaró e o Padre José Maria. Nossas conversas, mesmo à distância, eram verdadeiros encontros de fé e história.

O velório iniciou-se no dia 9 de agosto, às 6h, na Paróquia Santo Antônio, em Itinga, onde, às 8h, foi celebrada a missa de corpo presente. Às 9h, seu corpo seguiu para a Catedral de Araçuaí, onde, às 11h, houve nova celebração. Ao meio-dia, o traslado foi feito para Minas Novas, sua terra natal, com início do velório às 15h, na Igreja Matriz de São Pedro do Fanado. No domingo, 10 de agosto, às 8h, foi celebrada a missa de corpo presente, seguida do sepultamento.

O Vale do Jequitinhonha, onde suas palavras e gestos plantaram fé e esperança, agora guarda o silêncio de sua ausência. Mas também guarda o exemplo de um homem que viveu o Evangelho com fidelidade e que soube, como dizia sua tia Corina, chegar ao “bom fim”.

Francisco das Chagas Rocha
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso
Cuiabá, 10 de agosto de 202
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(adaptado)

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