A manhã do dia 19 de dezembro de 2025 ficará marcada na história do Vale do Jequitinhonha. Movimentos Sociais, entidades parceiras e a Diocese de Araçuaí realizaram a “Marcha pelo respeito ao Vale do Jequitinhonha”, com o lema “Onde há vida há direito, onde há povo, há resistência”. Centenas de pessoas percorreram as ruas da cidade de Araçuaí, desde a Praça do antigo Fórum até à Praça do Mercado, levando faixas, cartazes, palavras de ordem e as belezas do Vale, suas culturas e tradições.
Dando início à Marcha, o bispo de Araçuaí assim se pronunciou: “Chegou a hora de nossa Marcha! Marchamos por respeito ao Vale do Jequitinhonha! Marchamos por liberdade, por justiça e pelo direito dos nossos povos e seus territórios! Marchamos pela riqueza do Vale, pelas suas belezas e seus encantos! Marchamos pela sua história de valentia, pelas suas tradições e pela variedade das culturas dos povos do Vale! Marchamos pelos seus saberes, seus sabores e suas gerações que nunca foram perdidas, mas sempre enriquecidas de valores e de riquezas. Marchamos pelo Vale que vale viver!” Em seguida, leu o texto bíblico de Lucas 6,20-26, proclamando as bem-aventuranças e maldições do Reino de Deus.
Uma parada foi feita no Ministério Público do Estado de Minas Gerais, onde uma delegação entregou um documento, solicitando providências para os povos e seus territórios no Vale do Jequitinhonha. A cada parada, lideranças apresentaram suas falas de valentia, profecia e reivindicações. Chegando à Praça do Mercado, após vários pronunciamentos, foi lida a “Carta Formal: Desagravo da Marcha em respeito do Vale do Jequitinhonha”. Seguem alguns recortes desta Carta:
“Por meio desta Carta Formal de Desagravo, nós, povos, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares, mulheres, jovens, lideranças religiosas, representantes de movimentos sociais, organizações da sociedade civil e cidadãos do Vale do Jequitinhonha, reunidos na Marcha em Respeito ao Vale, vimos a público expressar nosso profundo repúdio às declarações proferidas pela CEO Ana Cabral da empresa Sigma Lithium durante a Conferência das Partes COP 30 em Belém/PA que se referiu às crianças do Vale do Jequitinhonha como ‘mulas d’água’, expressão que carrega conteúdo discriminatório, pejorativo e ofensivo à dignidade humana. (…)
O Vale do Jequitinhonha não aceita ser tratado como território sacrificável em nome de projetos minerais que concentram renda, agravam desigualdades e violam direitos. A mineração não tem autorização moral, social ou jurídica para desumanizar nossos povos ou se apropriar de nossos modos de vida como se fossem obstáculos ao progresso.
Diante da gravidade da fala, afirmamos este desagravo como ato de reafirmação da dignidade, do valor social, da história e da cultura do povo do Vale, bem como de defesa das crianças e adolescentes que vivem na região, as quais não podem ser tratadas como objetos, metáforas degradantes ou instrumentos retóricos de exploração econômica. Reivindicamos:
- Retratação pública formal da empresa pela fala ofensiva contra o Vale do Jequitinhonha e seus povos;
- Compromisso público de não repetição, com ações concretas de combate a práticas discriminatórias;
- Garantia de participação ampla, livre, informada e respeitosa das comunidades de todo o Vale em qualquer processo decisório que envolva impactos socioambientais;
- Fiscalização rigorosa por parte das autoridades públicas competentes, observando os princípios constitucionais de prevenção, precaução e participação social.
Marchamos porque o Vale do Jequitinhonha tem voz, tem história e tem futuro. E esse futuro não será decidido sem nós”.
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo Diocesano de Araçuaí















