outubro 19, 2026
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Fé e Política

Brueghel, Pieter IPays-Bas du Sud, Musée du Louvre, Département des Peintures, RF 730 – https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010061789 – https://collections.louvre.fr/CGU

Para muitas pessoas, fé e política não se misturam. Na Igreja, professa-se a fé; e no mundo,  faz-se política, como se não houvesse sintonia ou relação entre essas duas dimensões da vida humana. Para outras, porém, a política deve  servir-se da fé para alcançar seus objetivos. Um exemplo bem claro disso é a chamada “Teologia do Domínio”, que busca na fé elementos para justificar e solidificar uma ideologia de dominação sobre a humanidade.

Outra posição, distante dessas duas, consiste no esforço de buscar, na fé, luzes que iluminem a política, entendida, no bom sentido do termo, como a arte de servir ao bem comum. O Papa Leão, na esteira do Papa Francisco e em sintonia com a rica tradição da Doutrina Social da Igreja, tem afirmado que a atividade política é uma das formas mais elevadas de viver o amor cristão ao próximo. Trata-se, naturalmente, da boa política, orientada para a promoção do bem comum, a realização da justiça social e a construção de uma sociedade alicerçada no respeito à dignidade humana, à luz de princípios éticos e evangélicos.

Nesse aspecto, é importante reafirmar, no exercício da política, a prioridade que deve ser dada às pessoas mais necessitadas. A Igreja fez sua evangélica opção preferencial pelos pobres, perspectiva aprofundada pelo Concílio Vaticano II e desenvolvida em seus posicionamentos na América Latina e, especialmente, no Brasil. Há quem, de maneira tendenciosa, classifique essa opção como ideológica ou procure associá-la ao comunismo. Tais argumentos, porém, partem, muitas vezes, de quem já escolheu colocar-se ao lado dos ricos e poderosos deste mundo, beneficiados pelo grande capital e acomodados em suas zonas de conforto. Esses que traem o Evangelho e os princípios da Doutrina Social da Igreja parecem considerar suficiente lançar as migalhas que caem das mesas dos ricos para saciar a fome dos empobrecidos.

É importante ouvir o que diz a Igreja sobre essa opção pelos pobres. Como nos ensina o Papa Leão XIV, “o amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus conosco e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo contínuo ao coração dos cristãos, tanto das suas comunidades como de cada um individualmente. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria ‘carne’ a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Por isso, o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus” (DT, n. 103).

E continua o Papa, com palavras muito claras: “o coração da Igreja, por sua própria natureza, é solidário com os pobres, excluídos e marginalizados, com todos aqueles que são considerados ‘descartáveis’ pela sociedade. Os pobres ocupam um lugar central na Igreja, porque ‘deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade’. No coração de cada fiel encontra-se ‘a exigência de ouvir este clamor [que] deriva da própria obra libertadora da graça em cada um de nós, pelo que não se trata de uma missão reservada apenas a alguns’” (DT, n. 111).

O amor pelos pobres exige de nós opções muito claras neste momento histórico. Estamos diante de dois modelos de futuro para o nosso país, e não apenas de dois candidatos à Presidência da República. São dois caminhos bastante distintos, cuja escolha passa também pelo nosso voto no próximo dia 25 de outubro. Por isso, é fundamental analisar criticamente os diferentes aspectos em jogo antes de nos aproximarmos das urnas. A Igreja Católica não se orienta por uma ideologia partidária, não se submete a partidos políticos, não tem candidatos de estimação nem cultua mitos. Tampouco age como se seus rebanhos fossem currais eleitorais, prática ainda adotada por alguns coronéis de plantão, a serviço das elites dominantes. O que a Igreja tem é o Evangelho e uma causa fundamental: o amor aos pobres.

É preciso ter cuidado com as Fake News — notícias falsas e afirmações sem fundamento — que surgem a cada dia. Há muitos interesses em jogo. Alguns criam terrorismos para amedrontar pessoas menos informadas, alardeando supostos riscos de comunismo, aborto, ideologia de gênero e perseguição à Igreja.  Ao longo da história, estratégias semelhantes já foram utilizadas para difamar grupos considerados ameaçadores aos interesses dominantes. Nos primeiros séculos do cristianismo, durante o Império Romano, por exemplo, os cristãos foram alvo de acusações caluniosas, entre elas a de que realizavam secretamente rituais envolvendo o sacrifício de crianças e o consumo de seu sangue. São Justino Mártir escreveu suas Apologias justamente para defender os cristãos dessas acusações e apresentar publicamente as razões de sua fé. Nesse sentido, vale refletir sobre as palavras do saudoso e sempre atual Papa Francisco:

“É nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. (…) Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (GE, 101).

Ambos os candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial já tiveram a oportunidade de participar de governos anteriores. Algum deles procurou implantar o comunismo no Brasil? Houve alguma tentativa de alterar a legislação relativa às hipóteses de aborto legalmente permitidas em nosso país? Quais são os elementos concretos que poderiam comprovar a introdução da chamada “ideologia de gênero” no Brasil? Costumo encontrar banheiros unissex em aviões e ônibus, mas nunca os vi em outros espaços públicos… Criaram moinhos de vento para alimentar batalhas inglórias. Por mais que os “Sanchos Panças” de hoje tentem convencer os “Cavaleiros da Triste Figura”, seus argumentos parecem ser em vão.

Para realizar uma análise mais atenta, é preciso verificar o que os dois candidatos fizeram durante seus mandatos anteriores. É necessário analisar não apenas as políticas econômicas, mas também questionar que tipo de desenvolvimento cada um propõe. É preciso examinar as políticas públicas previstas em seus planos de governo e verificar se estão voltadas para os empobrecidos, em consonância com a opção evangélica de nossa Igreja. Também é fundamental analisar o que esses planos contemplam em termos de programas sociais e de políticas voltadas à saúde, à alimentação, à educação, à moradia, aos reajustes salariais dos trabalhadores e das trabalhadoras e ao cuidado com a Casa Comum, isto é, com o meio ambiente. Não menos importante é conhecer a trajetória de vida e os compromissos dos candidatos à Vice-Presidência, pois um deles poderá assumir a Presidência da República em caso de eventual impedimento ou vacância do titular, como já ocorreu diversas vezes na história de nosso país.

Precisamos de garantias para a soberania nacional, de respeito ao Estado Democrático de Direito, de compromisso com a Constituição Federal e de segurança contra qualquer risco de ruptura institucional. Precisamos, também, da manutenção dos direitos trabalhistas conquistados ao longo da história e, acima de tudo, da superação da cultura do ódio e da violência. Como nos afirmou a filósofa Hannah Arendt, “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”. Tudo isso deve nos levar à construção de uma sociedade pacificada. Essa é a verdadeira mudança que almejamos na sociedade.

Ainda é hora de questionarmos: que tipo de mudança desejamos? Mudança não pode ser sinônimo de retrocesso, de perda de garantias democráticas, socioeconômicas e trabalhistas. É para a frente que se caminha, respeitando a Constituição Federativa de nosso país, para evitar um estado de exceção. Ao promulgar a Constituição Cidadã de 1988, o Deputado Federal Ulisses Guimarães assim se pronunciou: “A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança”. No mesmo discurso afirmou, sob fortíssimo aplauso no Congresso Nacional: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”.

Considerando todos esses aspectos apresentados acima, precisamos sair de casa no próximo domingo e nos dirigir todos às urnas para votação, segundo o exemplo de Dona Cota, de 86 anos, que se alegra em se aproximar de mais um pleito eleitoral; a exemplo de tantos jovens e adolescentes que tomam as ruas de nosso país e de tantas cidades do mundo, em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos conquistados com tanto esforço pela classe trabalhadora. Participar das eleições não é um simples dever. É um direito que temos, assumindo em nossas mãos a responsabilidade pela nossa nação.

O Papa Leão XIV nos chama a edificar um mundo novo: “a civilização do amor não é uma utopia ingênua, mas um projeto exigente. Consiste na tradução da caridade em estruturas de justiça, em dar corpo institucional à fraternidade e em considerar o outro – seja ele uma pessoa ou um povo – como aliado necessário na construção do bem comum” (DH, n. 186). Para isso, é preciso aprender a ouvir uns aos outros,  enfrentar com coragem os desafios do presente e cooperar na construção de uma sociedade mais humana e fraterna. 

Dom Geraldo dos Reis Maia

Bispo de Araçuaí

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