A Leitura da Palavra de Deus a partir do Concílio Vaticano II

A menos de dez anos a Igreja fazia memória dos 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado entre os anos de 1962 e 1965, convocado e iniciado pelo então Papa João XXIII e concluído pelo Papa Paulo VI. É certo entre nós Cristãos católicos que as reflexões e considerações dele surgidas se fazem vivas e influentes no nosso modo de ser Igreja de hoje.

Por meio dele, a Igreja convida-nos ao retorno às origens de nossa fé. Assim sendo, na constituição dogmática sobre a Sagrada Escritura intitulada Dei Verbum, os padres conciliares convidam-nos à escuta, à interpretação iluminados pelo Espírito de Deus, e à transmissão dessa Palavra que se faz viva eficaz em nossa vida.

Em nossos tempos, nos quais a fé enfrenta desafios, mas sob Graça da Trindade Santa constitui acima de tudo forte pilar da existência humana, a leitura da Sagrada Escritura mostra-se como possibilidade da pessoa humana conhecer a Deus por meio de sua Revelação, e acima de tudo tornar-se sua testemunha para o mundo.

Desse modo, a Dei Verbum convida os Cristãos (especialmente aqueles que legitimamente se consagram ao ministério da palavra) que “se apeguem às Escrituras por meio de assídua leitura sacra e diligente estudo” a fim de que, por meio do contato pessoal com a Palavra cada um possa com mais vigor comunicar a outros a grandeza e riqueza da Palavra Divina.
Lembra-nos também a constituição que a “leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração a fim de estabelecer o colóquio entre Deus e o Homem”. Por isso mesmo, é dever de cada fiel assumir o compromisso de escuta e leitura orante de palavra Divina. É preciso, que enquanto Igreja do Ressuscitado, aprendamos a buscar na própria fonte o Deus que revela-se e comunica-se com seu povo por meio dos profetas, dos salmos, dos apóstolos e de seu próprio Filho Jesus o Cristo.

Dediquemos irmãos tempo preciosíssimo de nossa vida ao contato com a Escritura, para reconhecermos que por meio dela “o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala”. Por meio Dela, ainda, podemos encontrar consolo espiritual para nossa alma, base para nossa fé e uma fonte sem fim da qual jorra vida em abundância.

As condições benfazejas de nosso tempo permitem acesso fácil à Bíblia, utilizemo-la não como um simples objeto de decoração nas estantes de nossas casas. Antes de tudo, seja o livro base e central da família, em torno do qual todos possam reunir-se para juntos lerem e apaixonar-se pela Palavra de Deus.
A leitura orante da Bíblia é sem dúvida, uma experiência sublime, por meio da qual cada pessoa pode “ouvir Deus” com o próprio ouvido, a fim de que possa anunciá-lo com os próprios lábios.

Que cada Cristão que participa da Mesa da Eucaristia na qual se alimenta de um mesmo Pão por meio da Sagrada Liturgia, aprenda a fazer da palavra de Deus também uma Mesa comum, onde encontramos as instruções, nosso guia, nosso manancial de força transformadora de nossa fé em atitudes de amor. Que aprendamos a partir do contato com a Palavra sermos, com a própria vida testemunhas do Pai criador, do Filho Salvador Ressuscitado dos quais recebemos o Espírito que nos ilumina. Sempre é tempo de ouvir a Palavra de Deus, ela é atual em nossa vida, cultivemos em nós o desejo ardente pela Palavra, como lembra-nos o salmista: “Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar” Sl 85, 9
Nosso olhar diante da sagrada Escritura deve ser um olhar aberto, pois assim ela se mostra. Nunca a Bíblia é fechada em si mesma. Sua abertura se dá pelo excesso não pela insuficiência. Ler a Escritura Sagrada e deixar que ela cresça em nós. Por isso, ela será sempre uma realidade infinita para nós.

São Cipriano nos diz que “se na oração falamos com Deus, na Leitura Deus fala conosco”. Ler a Escritura é colocar-se antes de tudo como ouvinte ou espectador de Deus. A linguagem é como o teatro de Deus para se revelar a nós. Por isso cada gênero literário tem seu valor e lugar dentro do grande contexto bíblico. De narrativas épicas à poesias musicais, de romance histórico à linguagem apocalíptica, todos esses recursos utilizados pelos autores têm a intenção de nos colocar nas pegadas do Deus de nossa fé.

Pe. Sebastião Tiago Gomes
Vigário Paroquial da Paróquia Santo Antônio
Araçuaí- MG

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